Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse
Catarina Osorio de Castro – Eclipse

Eclipse

Demorei algum tempo a perceber exactamente o que me movia nas imagens da Catarina. Inicialmente, convenci-me que era a qualidade da luz que ela lhes conseguia imprimir. E lembrava-me da imagem de um rapaz no topo de uma escarpa sobranceira ao mar, de costas voltadas para a câmara, o seu olhar seguramente fixo na água e uma toalha cor de areia a esvoaçar-lhe sobre o ombro nu. Lembro-me de pensar como a intensidade daquela escarpa – em teoria, a mais parda das paisagens – podia funcionar como um bom exemplo do quanto uma fotografia pode ampliar a nossa experiência da realidade. Confirmei esta teoria inicial noutras imagens que, com esta, partilhavam uma tendência assumida para a hiper-representação das texturas, para uma ampla e clara profundidade de campo, para uma criteriosa construção compositiva e mesmo para uma aproximação episódica aos protocolos, aos efeitos e aos regimes visuais da pintura.

Até determinada altura, portanto, a minha relação com as obras da Catarina tinha por base uma espécie de fascínio formal, como se o espanto que os meus olhos devolviam às suas imagens não permitisse que me apercebesse do que para lá da superfície também era retratado. Uma outra imagem, contudo, quebrou essa alienação e começou a revelar o novelo de procedimentos, relações e recorrências temáticas que subjazem à prática da Catarina e que têm nesta exposição um novo e mais profundo desdobramento. Na referida imagem, um rapaz (o mesmo?) encontra-se deitado na relva, as suas costas voltadas para a câmara, o seu tronco nu polvilhado de pequenos sinais, como um mapa sem território. A qualidade da luz, a riqueza das texturas, o rigor compositivo e a alusão pictórica mantinham-se, mas o que se revelava agora era sobretudo o grau de intimidade em que esta(s) fotografia se apoiava e o modo como a gestão daquilo que se omite e do que é dado a ver promove uma espécie de curto-circuito na valência sugestiva da imagem, impedindo que a nossa atenção se dissipe ou resolva.

O facto de esta exposição ter ganho o título de Eclipse não será propriamente causal. De facto, muito do que aqui se apresenta, e do modo como se apresenta, tem a ver com esse fenómeno de ocultação que a ideia de eclipse sinaliza: um corpo que se interpõe, um outro que se fragmenta, uma sombra que tudo tolhe e o halo das coisas que se escondem e que, nessa condição, parecem brilhar mais forte. O esconder e o fragmentar do eclipse que aqui nos traz é fruto de um olhar treinado: de um olhar que sabe recortar de uma cena tudo e apenas aquilo que nos manterá interessados. Que sabe que esse interesse depende em absoluto de uma negação, de uma recusa em declarar imediatamente os seus verdadeiros intentos, e do efeito inverso que essa recusa provoca na imaginação. Quanto menos se vê, mais se imagina, e esse é um segredo que a Catarina sabe de cor.

É, muito provavelmente, por isso que tudo nesta exposição é deliberadamente parcial, truncado, dúbio. Está tudo (ou quase tudo) à distância de dois passos, essa medida que nem é demasiado perto para que tudo se torne abstracção, nem demasiado longe para que se torne descrição. É uma distância que nos põe no lugar do participante mais do que no lugar da testemunha e que nos deixa, assim, ao comando do veículo de sentido que o conjunto destas imagens fará. Entre a vista angulosa de uma janela partida, a simetria perfeita do pelo de um cavalo, um corpo reclinado sobre um leito incerto, o pára-brisas de um carro que espelha a cidade, o olhar cego de uma figura de gesso num paço senhorial – o quadro impressivo da sugestão a recordar-nos que a narrativa é mais intrigante quando se apresenta omissa, o olhar mais agudo quando não encontra o que procura, o sol mais ponderoso quando a lua se interpõe.

Bruno Marchand
Março 2019

It took me some time to realize exactly what moved me in Catarina’s images. Initially, I was convinced it was the quality of light she could reveal, and I remembered the image of a boy at the top of an escarpment overlooking the sea with his back to the camera, his gaze fixed on the water, and a sand-colored towel fluttering over his bare shoulder. I remember thinking how the intensity of that escarpment – in theory, the driest of landscapes – could serve as a good example of how much a picture can magnify our experience of reality. I confirmed this initial theory in other images that shared, with this one, an assumed tendency for the hyper-representation of textures, for a wide and clear depth of field, for a judicious compositional construction and even for an episodic approximation to the protocols, effects and visual regimes of painting. Up until a certain time, therefore, my relationship with Catarina’s works was based on a kind of formal fascination, as if the astonishment my eyes returned to her images kept me from realizing what was being portrayed beyond the surface. Another image, however, broke this alienation and began to reveal the tangle of procedures, relationships and thematic recurrences that underlie Catarina’s practice and have met new and deeper unfoldings in this exhibition. In that image, a young man (the same?) is lying on the grass, his back turned to the camera, his naked trunk sprinkled with small signs, like a map without a territory. The quality of the light, the richness of the textures, the compositional rigor and the pictorial allusion remained, but what was revealed now was, above all, the degree of intimacy supporting this photograph and the way in which the arrangement of what is omitted and what is shown promotes a kind of short circuit in the suggestive valence of the image, preventing our attention from dissipating or from deciphering it.
The fact that this exhibition has earned the title of Eclipse is not entirely causal. In fact, much of what is presented here, and of how it is presented, has to do with this phenomenon of occultation that the idea of ​​eclipse signals: an interposing body, another one fragmented, an all veiling shadow and the halo of things that are hidden and, in this condition, seem to shine stronger. The hiding and fragmenting of the eclipse that brings us here is the fruit of a trained gaze: one that knows how to cut out of a scene everything and only that which will keep us interested. That knows that this interest depends entirely on a denial, a refusal to declare at once its true attempts, and the reverse effect this refusal provokes in the imagination. The less you see, the more you imagine, and this is a secret that Catarina knows only too well.
It is, most probably, why everything in this exhibition is deliberately partial, truncated, dubious. It is all (or almost) at a distance of two steps, this measure that is not close enough for everything to become an abstraction, nor too far for it to become a description. It is a distance that puts us in the place of the participant rather than in the place of the witness and thus leaves us in command of the vehicle of meaning the set of these images will create. Between the angular view of a broken window, the perfect symmetry of a horse’s hair, a body resting on an uncertain bed, the windshield of a car that mirrors the city, the blind gaze of a plaster figure in a manor house – the impressive picture of the suggestion to remind us that the narrative is more intriguing when it is silent, the gaze is sharpest when it does not find what it seeks, the sun more ponderous when the moon stands in between.

Bruno Marchand
Março 2019